08:14 | Author: M.
"Ele não me ama!", "Ele não me ama!..." Ela repetia aos berros mentais essa trágica resolução amorosa. E coordenava os passos e o sentimento numa corrente, arrastando -se pela casa. Como se, fastiosa de viver, já fosse o próprio fantasma de si. Sentia o coração acelerar e já passava muito do meio-dia. Comer, para ela, tinha o peso da solidão de séculos. Como viver esse aleijo?
O dia passando à meia luz e, embora soubesse que lá fora arde, ela sentia frio. Os berros mentais diminuiram, música sempre ajuda... Ah, o silêncio da solidão... E todas as possibilidades que ele dá à cabeça, já não vaga.
É preciso comer e encarar a falta de apetite completa. Quase nojo, lembrava que era pecado enojar - se da comida. Seu pai a lembrava, embora estivesse longe.
Comeria. Certamente, comeria.
O coração ainda...
E dava de arrefecer a rigidez nas costas. Como dormia mal! Acordava, certos dias, ainda mais cansada. Como se dormir fosse uma batalha. Não se lembra de tempos de dormir bem, mas queixumes sobre a nuca, as cadeiras, os braços doloridos. E como lhe doíam os braços! Pareciam sempre enfraquecer, como galhos à ponto de quebrar.
Arisca, fez- se ríspida para ele.
Por que, dolorida, não costuma se expôr. Não costuma...
Ríspidez causando lhe arrepios por trás das costelas. Antes dos poros, os músculos já se arrepiavam, erissados, ciclídeos. Na rapidez de quem corta a água, ela se pôs em busca de ajuda. Por que não poderia mesmo permanecer... O coração ainda... Então.
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1 comentários:

On 14 de novembro de 2009 às 15:28 , restos: disse...

Dolorida, com certeza ela jamais se exporia.
Há na (ex)posição um quê de resolução já.

O não comer, o não dormir, o não amar, o não viver, querendo ou não, são também resoluções.

E cada um vai resolvendo como pode.

Escrevamos, escrevamos, escrevamos.
Amém!